nº 15 ano 4 | Dezembro 2013
Especial

2014: O que esperar das ruas: silêncio ou mobilização?

Por Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Rojas de Carvalho

O primeiro semestre de 2013 deve, sem dúvida, ser considerado como ponto inédito de inflexão na história recente do País: tendo por elemento deflagrador o protesto contra elevação das tarifas de ônibus em São Paulo, milhões de jovens saíram às ruas em escalada crescente tanto em número de ativistas quanto na extensão da pauta de suas demandas. Enquanto o movimento de ocupação das ruas se disseminou em processo viral por centenas de cidades brasileiras, a agenda de reivindicações e críticas se ampliou em forma espiral: ao tema localizado das tarifas de ônibus veio se somar amplo leque de críticas, que se voltaram tanto à qualidade dos serviços públicos – notadamente a precariedade da educação e da saúde públicas – como a uma pauta de natureza ética, centrada nas manifestações mais ostensivas da natureza patrimonialista de nosso estado. A rua insurgente de 2013, rua inesperada tanto em sua eclosão como em sua dimensão, se mostrou ademais infensa a qualquer direcionamento por parte dos atores políticos. A resposta dos governos estaduais e federal, embora necessária, esteve longe de estancar o movimento: o congelamento das tarifas de ônibus e o pacote de leis enviado pelo Executivo ao Congresso, com propostas de considerável relevância, como a consulta popular sobre a reforma política, pouco repercutiram sobre o ânimo dos manifestantes.

Se a primeira onda da “primavera brasileira” se notabilizou por sua amplitude e caráter inesperado, cabe assinalar que a primeira fase do movimento refluiu no horizonte de meses, dando lugar a uma rua mais radicalizada e violenta, tanto no que se refere à orientação dos manifestantes, como à resposta dos agentes policiais. A rua radicalizada e policiada – onde black blocs assumiram lugar de protagonismo – teria deslocado e neutralizado – para muitos, com o estímulo ou anuência velada dos poderes estabelecidos – uma rua politizada, sem direção, e potencialmente perigosa. A ocupação recente dos shoppings centers por jovens da periferia paulista representaria uma linha de continuidade, em escala reduzida e dotada de outro conjunto de significados, de uma rua que se radicaliza, para muitos, com o fim precípuo de neutralização do retorno da primeira onda das manifestações de 2013.

Nesse momento, em ano chave, em que o Brasil sedia o seu primeiro megaevento e em que se disputam eleições desde já polarizadas tanto no plano nacional como nos estados, certamente uma pergunta se impõe tanto para os atores políticos como para os analistas – o que esperar das ruas deste ano: silêncio, mobilização ou radicalização? A resposta a essa questão requer mais do que nunca a compreensão, ao menos uma tentativa, das forças subjacentes às ruas de 2013. Esse é o esforço deste ensaio.

2014: O que esperar das ruas: silêncio ou mobilização?
Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro
é coordenador nacional do INCT Observatório das Metrópoles e professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ).
Nelson Rojas de Carvalho
é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pesquisador do Observatório das Metrópoles na linha sobre Governança Metropolitana.