Editorial

nº 36 ano 10 | Março 2019

Com muito prazer anunciamos a chegada da 36ª Revista eletrônica de estudos urbanos e regionais e-metropolis. Com as energias renovadas frente aos dilemas, desafios e esperanças que se apresentam, a edição inaugura o ano de 2019 reafirmando nosso compromisso editorial com as abordagens transdisciplinares e, sobretudo, com pontos de vista críticos sobre a vida urbana.

No artigo de capa Metrópole e economia urbana na Amazônia: olhando Belém na perspectiva da teoria dos circuitos, os autores Gabriel Carvalho da Silva Leite e Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior buscam compreender, a partir da teoria dos circuitos de Milton Santos, a dinâmica da economia urbana da metrópole de Belém. O texto mostra o desacordo entre as estratégias atuais de planejamento e gestão adotadas em Belém e a realidade socioespacial manifesta na relativa ubiquidade de agentes e atividades do circuito inferior da economia por toda a extensão metropolitana.

No artigo Na encruzilhada do exu policial: religião, milícia e regimes de proteção na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, a autora Ana Paula de Souza Campos explora o tema da segurança sob uma perspectiva simbólica, a partir de uma pesquisa etnográfica em terrenos de umbanda na zona oeste do Rio de Janeiro. Entre vulnerabilidades reais e proteções divinas, o artigo oferece uma visão inovadora sobre o tema.

O artigo Do objeto ao sujeito: Reflexões a partir de uma breve genealogia de anúncios publicitários de condomínios fechados no Brasil, da autora Stephanie Mesquita Assaf, parte da análise dos condomínios fechados brasileiros para analisar as relações entre sujeitos e objetos em sociedades margeadas pelo consumo. Para tanto, são analisadas peças publicitárias que mostram não apenas a intencionalidade de se criar uma simbologia de liberdade, comunidade e segurança, que oblitera e domestica a complexidade dos elementos acionados, mas que também auxilia na manutenção da fragmentação social.

No artigo Lugares abandonados: decadência urbana e desolação na cidade, o autor Rafael Ferreira de Souza apresenta uma reflexão crítica sobre os lugares abandonados nas cidades. A partir da degradação do espaço construído, busca analisar suas origens e o significado simbólico-representativo destes espaços na representação imagética da cidade, no cognitivo da memória urbana, especialmente considerando a presença inegável das ruínas na morfologia urbana e, por conseguinte, na composição da estética da cidade.

No artigo Reconhecendo mercados: um estudo embeddedness sobre o “shopping-chão”, as autoras Helena Rodrigues Lopes e Maria Luiza Barbosa realizam uma etnografia pelos bairros da Glória e Centro da cidade do Rio de Janeiro para pensar o mercado enraizado na sociedade através do conceito embeddedness trazido pela nova sociologia econômica. Entrevistando os atores envolvidos no chamado “shopping-chão” as autoras trançam considerações a respeito da calculabilidade dos produtos e das estratégias utilizadas para precificação, da negociação, da presença feminina, e do binômio da presença/ausência do Estado, dado pelo reconhecimento da negação da atividade de comércio informal.

O entrevistado desta edição é o professor chileno, Ernesto López-Morales. A entrevista, realizada por Mariana Werneck e Bruna Ribeiro, trata das experiências na América Latina de processos de recuperação urbana de distritos centrais e waterfronts portuários. Lopes-Morales aponta que essas experiências muitas vezes são impulsionadas por constrangimentos externos decorrentes da imposição de políticas de ajuste econômico e da disseminação de boas práticas (best practices) pelas agências multilaterais. Assim, de forma geral, as cidades da América Latina parecem repetir as diretrizes neoliberais, criando versões locais de um mesmo fenômeno global e excludente.

A mais nova obra do prestigiado cientista social estadunidense Richard Sennett intitulada “Construir e habitar: ética para uma cidade aberta” é objeto da resenha desta edição, com autoria de Pedro Paulo Bastos. Último livro de uma trilogia na qual o autor se dedicou a estudar o Homo Faber em diferentes interfaces, agora focado em analisar de que maneira o desenho urbano influencia as nossas relações cotidianas.

O filme “O Insulto”, do diretor Ziad Doueiri, é a tônica da seção especial desta edição. Com o título O Insulto: identidade, cultura da mídia e política, o texto, escrito pela pesquisadora de Priscilla Oliveira Xavier, apresenta uma análise da cultura da mídia, entrelaçando comunicação, identidade e política. Ao fazer um panorama da conjuntura e dos impasses diplomáticos relacionados com a região onde o filme é produzido, a autora discute o conceito da cultura como ferramenta política e sinaliza os embargos à produção e distribuição do filme como um produto cultural.

A partir do olhar sobre os cortiços do centro histórico da cidade de São Luís, o ensaio fotográfico Modo precário e segregado de moradia: um olhar sobre o cortiço em São Luís – Maranhão apresenta os contrastes dessa parte da cidade entre o novo e o velho, entre o rico e pobre.

Por fim, agradecemos autores, pareceristas e colaboradores, desejando a todos uma excelente leitura. Aproveitamos para convidá-los a conhecer nossas edições anteriores.